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A angústia nossa de cada dia.

A angústia nossa de cada dia.

Um fogo devora um outro fogo. Uma dor de angústia cura-se com outra.

William Shakespeare

A angústia não é um afeto novo, em 1839 ela já era descrita por George Beard como uma fadiga física de origem nervosa, só então em 1895 que Freud vai delinear o conceito de angústia relacionando-a com a falta de escoamento satisfatório da libido, ou seja, uma “acumulação física de excitação” nomeando-a de neurose de angústia. Freud acreditava que esse recalque da libido é que produziria a angústia porém em meados de 1925 ele reformula sua teoria a partir de casos estudados, chegando a conclusão de que é o contrário é a angústia que produz o recalque. Já para Lacan a angústia é a resposta frente ao desejo do outro, é ela que introduz a função da falta.

Pensando nesses conceitos e combinando-os com o modelo de mundo em que vivemos podemos delinear um novo desenho de angústia do sujeito contemporâneo, que por muitas vezes se manifesta na depressão, na falta de significado e sentido na vida, na solidão, na preocupação excessiva com o corpo e com sua limitação, com as doenças, a velhice e por fim a morte.

Há 50 anos atrás os papéis familiares e sociais eram bem definidos, existiam muitas certezas e de certa forma uma segurança e estabilidade, por exemplo os casamentos eram em sua maior parte indissolúveis, bons ou ruins eles eram considerados algo para a vida toda. Os pais tinham tarefas bem claras dentro das famílias, a de provedor, já as mães ficavam com o cuidar, da casa, dos filhos, etc. Os filhos por sua vez tinham regras rígidas, horários e “manuais” de comportamento.

Diversos fatores marcaram a queda desse modelo familiar e social como a entrada da mulher do mercado de trabalho, a flexibilização das leis, o divórcio, a tecnologia, a informação, os direitos adquiridos por casais homossexuais e acima de tudo à liberdade de escolha.

A liberdade é uns dos fatores principais que precisamos destacar dos demais, é justamente essa liberdade que traz a dúvida, a angústia pós moderna, já não existem certezas ou verdades absolutas, saímos da zona de conforto aonde tudo era bem definido para um mundo de possibilidades. Temos diversos modelos de famílias diferentes, com pai e mãe separados, guardas compartilhadas, dois pais, duas mães, mães solteiras, pais solteiros, avós que são pais, adolescentes que são mãe e pai, dentre tantos outros.

Nas relações sociais temos a “liberdade” de escolher uma profissão, uma carreira, um trabalho. Temos informações por todo lado à uma velocidade impressionante, temos a internet que nos leva a qualquer lugar mas também nos tira de todos os lugares, estamos sempre presentes-ausentes. Temos as redes sociais que nos trazem um modelo de felicidade inatingível e de corpos perfeitamente esculpidos, temos os celulares que “pingam” à todo momento, é um grande vazamento que parece que não somos capazes de estancar.

É na pressão de atender à todas as demandas, nossas e dos outros, que experienciamos o sentimento de angústia, precedido por uma ansiedade existencial, um sentimento de “estou tão cheio mas vazio”.Nessa busca da completude inalcançável é que surge o novo modelo de sofrimento pós moderno: “Quem sou eu nessa grande fila do pão”?

Súbita, uma angústia…

Ah, que angústia, que náusea do estômago à alma!

Que amigos que tenho tido!

Que vazias de tudo as cidades que tenho percorrido!

Que esterco metafísico os meus propósitos todos!

Uma angústia,

Uma desconsolação da epiderme da alma,

Um deixar cair os braços ao sol-pôr do esforço…

Renego.

Renego tudo.

Renego mais do que tudo.

Renego a gládio e fim todos os Deuses e a negação deles.

Mas o que é que me falta, que o sinto faltar-me no estômago e na

circulação do sangue?

Que atordoamento vazio me esfalfa no cérebro?

Devo tomar qualquer coisa ou suicidar-me?

Não: vou existir. Arre! Vou existir.

E-xis-tir…

E—xis—tir …

Meu Deus! Que budismo me esfria no sangue!

Renunciar de portas todas abertas,

Perante a paisagem todas as paisagens,

Sem esperança, em liberdade,

Sem nexo,

Acidente da inconsequência da superfície das coisas,

Monótono mas dorminhoco,

E que brisas quando as portas e as janelas estão todas abertas!

Que verão agradável dos outros!

Deem-me de beber, que não tenho sede! (Pessoa, 1980, p. 264-265).

Autora: Danielle Vieira – Psicóloga em Bragança Paulista e São Paulo – SP, CRP 06/131376

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