Entre o coração e a vida prática.

“Tudo passa e tudo fica
porém o nosso é passar,
passar fazendo caminhos
caminhos sobre o mar

Nunca persegui a glória
nem deixar na memória
dos homens minha canção
eu amo os mundos sutis
leves e gentis,
como bolhas de sabão

Caminhante, são tuas pegadas
o caminho e nada mais;
caminhante, não há caminho,
se faz o caminho ao caminhar.”
Cantares, Antonio Machado

A etimologia da palavra coração vem do latim “cor” e que depois nas línguas ibéricas ganha um sufixo que dá um sentido aumentativo “cor + sufixo”. Há também uma palavra semelhante em nossa expressão “saber de cor” – saber de coração. A partir daí, podemos rastrear variações da palavra latina: o “coeur” no francês, o “cuore” no italiano, o “còr” no occitano, até chegarmos ao romeno “cord”. No entanto, há uma surpresa. A palavra mais comum para “coração” em romeno não é “cord” (que também existe), mas sim “inimă”. De onde vem essa palavra que não se parece nenhum pouco com as outras? Vem da palavra latina “anima”, ou seja, da alma.

O coração como figura simbólica representa para nós humanos o centro das emoções e sentimentos, ideia essa que foi reforçada ao longo dos séculos por poetas e filósofos e que colocam o coração como o representante do nosso estado de espírito que inclui algo de misterioso, sensações desconhecidas e possibilidades infinitas de contato com uma inspiração divina. Criar algo com o coração é dar vida ao que vem da alma, que vai de encontro a um propósito pessoal e que traz satisfação em um nível raramente alcançado em outros feitos. Criar algo a partir do coração também significa a capacidade de se permitir entrar em contato com o mais profundo de nós, com aquilo que nos desperta ou com aquilo que nos permite navegar no desconhecido, no inconsciente, exige também tempo, paciência e muitas vezes até a capacidade de aguentar perturbações mentais e físicas que nos colocam em desafio com nosso próprio coração.

Corta para 2024 e para nossa configuração do que chamei aqui de “vida prática”, o que nada mais é do que as obrigações do dia a dia, o que nos mantém vivos, produzindo nosso sustento e o que nos mantém no fio da realidade material. A intenção aqui não é separar o que vem do coração e o que é a vida prática até porque eles podem encontrar formas de viver em harmonia, mas justamente tentar entender como encaixar um propósito que vem do coração e como encontrar ou potencializar nossa capacidade de criar com a alma dentro de um contexto neurótico, que por muitas vezes estamos inseridos, de ter que produzir cada vez mais, ganhar mais dinheiro, mais títulos e fazer a roda do comércio girar.

Um dos fatores essenciais para criar com a alma é tempo, cada vez mais escasso e cada vez mais preenchido com distrações superficiais, o tempo parece escorrer entre os dedos e os dias parecem cada vez mais rápidos e cheios de tarefas a cumprir, a prioridade raramente será um tempo para criação de algo que por muitas vezes não trará retorno financeiro, não vai ajudar com as tarefas de casa ou até mesmo no trabalho. Além disso, pode ser visto por quem está de fora como um desperdício de tempo, uma forma de procrastinação ou até mesmo ser mal visto por aqueles que estão 100% enraizados no mundo prático.

Observação, a capacidade de criar e de deixar emergir passa por uma característica essencial, simplesmente suspender as demandas internas e externas e poder observar o que está ao redor, apreciar a vida e ficar a sós com nossos próprios pensamentos e sentimentos.

Curiosidade, algo que parece que se dissolve hoje em dia pois vivemos em um mundo com tantas respostas prontas, inteligência artificial, pouca curiosidade e experimentação. A curiosidade é o caminho da inovação, da criação e da evolução da humanidade, é o que deveríamos aprender mais com as crianças e preservar enquanto adultos.

Criar com a alma requer esforço. Vimos isso no trabalho de qualquer artista, músico, professor, desenhista – qualquer um que tenha uma ideia de negócio e deseje dar vida à sua paixão. Talvez esse também seja um dos motivos pelos quais as pessoas desistem e busquem se enquadrar na rotina e no dia-a-dia da vida prática, sem nunca ir além.

Para aqueles cuja origem e necessidade de ser, remetem ao universo da alma e do coração, eis o desafio, encontrar formas de colocar esse propósito criativo do coração e tentar enquadrar ele em uma vida prática pré-estabelecida ou criar um novo sistema de vida onde a alma possa ter mais voz e a mente possa silenciar das demandas do dia-a-dia.

O coração simplifica, enquanto a mente muitas vezes complica. O coração cria caminhos, e a mente cria dúvidas. Quando estamos em desequilíbrio entre nossa vida material e nosso coração, temos a tendência de sermos tragados pela nossa própria mente e nossa capacidade de pensar, e por vezes, de pensar demais.

A vida prática requer habilidades e não são poucas, é preciso muita sabedoria para navegar nesse mundo, mas é também preciso aprender a equilibrar nossas necessidades da alma, ter algum propósito mesmo que sejam pequenos propósitos diários. Como encontrar esse caminho do meio?

Integrar valores, sentimentos e emoções às atividades rotineiras é um passo fundamental para uma vida mais significativa. Comece definindo seus valores como ser humano e busque encontrar propósito em suas atividades diárias, seja no trabalho ou em outras áreas da vida. Dedique-se também a atividades que promovam o bem-estar dos outros e que estejam alinhadas com seus valores pessoais. Reserve um tempo para criar um espaço de “descompressão”, onde você possa se desconectar do mundo exterior e praticar a observação e o silêncio da mente, seja através da meditação ou outras técnicas que permitam o contato com sua essência interior. Procure se conectar com o que realmente te faz sentir parte integrante do mundo, seja por meio de encontros com amigos e familiares, tocando um instrumento musical ou registrando seus pensamentos em um diário. Esses momentos de conexão profunda consigo e com os outros são essenciais para nutrir o seu bem-estar emocional e para uma vida mais autêntica e satisfatória.

Encontrar um caminho de vida mais integrado é um desafio para todos, e cada um terá que descobrir sua própria receita de harmonia entre coração e a vida prática.


Autora: Danielle Vieira
Imagem: “The Balance”, Christian Schloe 

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