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O consumo de pessoas: estamos criando uma nova forma de relacionamento?

O consumo de pessoas: estamos criando uma nova forma de relacionamento?

“Na era glacial muitos animais morriam de frio. Os porcos espinhos percebendo a situação decidiram juntar-se em grupos, assim se protegiam mutuamente, mas os espinhos de cada um feriam os companheiros mais próximos, justamente aqueles que ofereciam mais calor, por isso decidiram se afastar uns dos outros e novamente começaram a morrer de frio. Então tiveram que fazer uma escolha: Ou desapareciam da Terra ou aguentavam os espinhos para manter-se aquecidos.

Com sabedoria decidiram ficar juntos. Aprenderam assim a conviver mantendo uma distância ideal, nem muito perto para se espetar, nem muito distante para não perder o calor e também, a suportar pequenas feridas que a relação com uma pessoa muito próxima podia causar, já que o mais importante era o calor do outro. E assim, sobreviveram à longa era glacial.”

Schopenhauer – A Fabula do porco Espinho

A fabula do porco espinho parece trazer um dilema humano, ficar e aguentar os espinhos ou partir e arriscar morrer congelado?

afetos

Trazendo esse dilema para a atual realidade parecemos viver em tempos de racionalização excessiva dos afetos, temos medo da conexão com pessoas, conexão de verdade, construir vínculos, suportar espinhos, afetar e deixar ser afetado, vivenciar os próprios afetos e sentimentos e compartilhar com outras pessoas.

Os sites de namoro e em especial os aplicativos como Tinder, Happn, entre outros, são uma amostra dessa nova forma de relacionamentos transformada pela tecnologia, mas que muito tem a dizer sobre nossos comportamentos, emoções e a forma como estamos lidando com nossos afetos.

Em uma era onde o capitalismo instiga o consumo de forma avassaladora, os aplicativos parecem vir com a mesma proposta: o consumo de pessoas. Basta deslizar o dedo na tela e dizer se “deu match” ou não e passar para a próxima foto até encontrar alguém e quem sabe marcar um encontro real.

Outra opção são os aplicativos de geolocalização, que buscam pessoas que estão no mesmo local e “facilitam” a aproximação, substituindo aquele “olhar ao redor” e a busca por alguém interessante em um bar por exemplo. Não é incomum vermos pessoas sentadas em bares e restaurantes com amigos e olhando para as telas de seus smartphones, buscando pessoas ao redor ou postando nas redes sociais o quanto estão desfrutando daquele momento, é como se estivéssemos sempre acompanhados, mas ao mesmo tempo sozinhos. Estamos em uma multidão e uma solidão ao mesmo tempo.

Apesar da proposta atrativa trazida por esses apps chama atenção o fato de que muitas vezes eles funcionam como um mecanismo anti-frustração, uma vez que duas pessoas só irão de fato marcar um encontro se já tiverem previamente se conhecido online, trocado fotos e informações, trazendo assim uma falsa sensação de controle sobre a situação e uma certa segurança.

A modernidade é uma época que tem por objetivo o controle de tudo e o afeto por definição é aquilo que não é controlável, é o que nos afeta além de nossa autonomia e a proposta de consumo de pessoas é muito atrativa pelo fato de que pode ser algo casual, que não traga muitas responsabilidades, que não nos afete profundamente, mas que supra certas necessidades é quase como escolher em uma prateleira de supermercado o produto que mais lhe agrada naquele momento apenas pela embalagem.

Pesquisas feitas pelo Happn Brasil trazem número surpreendentes: 60% da população brasileira afirma usar esses aplicativos para buscar novos relacionamentos, o que amplia as possibilidades de encontrar alguém e é justamente essa liberdade de escolha que parece estar diretamente ligada ao aumento da angústia, quanto mais possibilidade mais angústia. Por que aguentar espinhos se tenho tantas possibilidades? Ao mesmo tempo gostaria de ter alguém pra dividir pois já tenho muitas possibilidades.

Nessa ambivalência e nesse mundo de possibilidades e escolhas nunca nos conectamos tanto com outras pessoas, mas ao mesmo tempo nunca nos desconectamos tanto e o que chama a atenção parece ser o poder de se desconectar, basta apertar um botão e tudo está terminado, sem muitos espinhos, aí é só deslizar a tela e se preparar para um novo match.

Autora: Danielle Vieira – Psicóloga Clínica em Bragança Paulista e São Paulo – SP, CRP 06/131376

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