neurocepção

A Neurocepção e sua conexão com o Trauma.

De que forma selecionamos quais experiências são seguras e quais podem ser ameaçadoras?

Você já deve ter escutado em algum lugar sobre como nossos cérebros são preparados de maneira inata para detectar situações de ameaça, perigo e segurança, esse sistema é parte essencial para a sobrevivência de qualquer espécie. Através dos nossos órgãos sensoriais detectamos novas situações e rapidamente informamos ao nosso sistema sobre a situação, por exemplo quando vemos, ouvimos, tateamos, sentimos um sabor ou um cheiro, uma série de informações novas são geradas e outras tantas são recuperadas através das memórias que criamos sobre determinadas situações ou coisas, sinais químicos e elétricos são enviados para o nosso sistema nervoso central e periférico que então informa o nosso corpo sobre esse novo estímulo e direcionando para uma tomada de decisão a fim de preservar ao máximo a integridade e a segurança.

Esse é basicamente o sistema de Neurocepção, um sistema automático de percepção inconsciente de um perigo, ameaça ou segurança. De acordo com o Dr. Stephen Porges, pesquisador e criador da teoria polyvagal, “a neurocepção explica por que um bebê murmura para um cuidador, mas chora para um estranho, ou por que uma criança gosta do abraço dos pais, mas vê o abraço de um estranho como uma agressão”. Ela provavelmente já formou memórias de que com os pais tem um ambiente seguro mas com um estranho não, portanto, ela sente como uma ameaça e partir disso algumas reações são possíveis:

Você já deve ter escutado falar também das reações possíveis diante de uma situação de estresse, luta, fuga, congelamento e uma quarta possibilidade é conhecida como “FAWN”, em tradução livre do inglês “bajular”. Uma reação rápida de tentar agradar ao outro para evitar qualquer conflito, frequentemente é uma resposta desenvolvida a traumas sofridos na infância onde há abusos causados por um agressor, normalmente um adulto autoritário, seja um abuso verbal, físico ou sexual.

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QUAL A LIGAÇÃO DO TRAUMA COM O SISTEMA DE NEUROCEPÇÃO?

O trauma está intimamente ligado à neurocepção, uma vez que nossa percepção de um ambiente seguro ou inseguro é formado por todas essas experiências através da neurocepção, quando traumas acontecem de maneira repetida ou muito cedo ele vai moldar essa neurocepção, considerando e incorporando esses novos elementos traumáticos ao sistema. Indivíduos que sofreram traumas podem ser hipervigilantes, ativando o sistema de neurocepção mesmo quando não há ameaça ou perigo, comprometendo a capacidade de relaxamento, de prazer, de autocontrole e confiança.

Dr. Stephen Porges afirma que, “a neurocepção desequilibrada pode estar na raiz de várias condições diagnosticáveis, incluindo autismo, esquizofrenia, transtornos de ansiedade, depressão e transtorno de apego reativo. Pessoas que sofreram traumas e que vivenciam essa situação de neurocepção desequilibrada podem ter problemas para se conectar com outras pessoas, lutar para manter relacionamentos significativos e sentir extrema solidão. Dessa maneira é possível destacar que o trauma não é cognitivamente processado, pois quando falamos em sistemas neuronais como a neurocepção não estamos na dimensão das emoções ou do pensamento, ainda estamos em sistemas primitivos das sensações e para evitar o trauma o individuo irá evitar todas as situações e fatores internos e externos que o leve a lembrança das sensações traumáticas. As consequências desse isolamento e dificuldade em criar vínculos pode ser perigosa, pode gerar uma série de transtornos mentais e físicos, uma vez que também somos seres sociais.

É POSSÍVEL REVERTER ESSE QUADRO?

As experiências traumáticas podem somar-se o que torna ainda mais difícil para que uma pessoa possa ignorar, quebrar ou amortecer esses circuitos que se repetem. Uma combinação de fatores pode ajudar nessa criação de novos caminhos neuronais, como a compreensão da neurocepção combinada com a psicoterapia que pode propiciar um ambiente seguro para o trauma e para a elaboração dessas experiências traumáticas, é possível também desenvolver mecanismos de enfrentamento às reações de luta, fuga, congelamento e “fawn”, e a co-regulação entre paciente e terapeuta parece cada vez mais essencial em um processo de cura de pessoas traumatizadas.

Esse texto tem caráter informativo, baseado nos encontros do grupo de Psicanálise Relacional e em textos abaixo:
Referências


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