Às vezes somos árvores, enraizamos.

Às vezes somos árvores, daquelas bem antigas com troncos grossos e raízes que percorrem metros no subsolo, quero dizer que às vezes somos enraizados na nossa história como se não houvessem outras maneiras de viver, como se a mudança fosse algo totalmente impossível, isso porque somos também teimosos, insistimos em querer consertar os outros e o passado. Detestamos mudanças, pesquisas comprovam que nosso cérebro precisa recrutar novas redes neuronais para executar uma mudança, o que leva a maior gasto de energia e de uma perspectiva evolutiva, não é uma boa ideia, seria como percorrer um caminho desconhecido não sabendo quais perigos podem te esperar no percurso, e por que não seguir naquele que já conhecemos? Por mais que a situação que vivemos seja muito ruim é um ruim já conhecido, empacamos.

Mudar o relacionamento com o passado é algo difícil e uma das coisas que se trabalha em terapia, mas existe algo tão importante quanto, que é mudar a relação com o futuro, é ele quem nos guia no presente, é a perspectiva do por vir que nos faz segurar o leme e apontar a direção no presente. Passado e futuro estão interligados e ambos sustentam o presente.

Empacamos não só pelo passado mais por acreditar que não temos como mudar, que não sabemos como, que é impossível, que somos aquilo e pronto, que somos somente um produto da nossa história e que nada podemos fazer sobre isso. Essa atitude passiva perante aquilo que nos consome é também um sintoma da época em que reconhecemos sintomas e nos encaixamos em transtornos do DSM e usamos isso como maneira de justificar muitas coisas, sem pensar a implicação de cada um na sua história. É muito comum hoje pacientes já chegarem à terapia com um diagnóstico, dado pelo Dr. Google, por eles mesmos ou até por um profissional e isso representar um fim. Sou isso e pronto, tenho isso e pronto.

Apesar de resistir às mudanças, o ser humano sempre teve alta capacidade de adaptação, ao frio, ao calor, chuvas, ventos, desertos e geleiras, sempre encontramos maneiras de sobreviver como civilização. Cientificamente, sabemos que, nosso corpo, incluindo nosso cérebro, é capaz de se adaptar à diversos tipos de situações. Inclusive, alguns autores vão destacar que saúde mental está diretamente ligada à capacidade de adaptação. Quanto maior a capacidade de uma pessoa se adaptar ao ambiente e as adversidades maior a probabilidade de essa pessoa ter uma boa saúde mental.

Seria justamente essa capacidade de adaptação que nos faz empacar em situações ruins, em relacionamentos ruins ou em modos de ser disfuncionais? Ou seria justamente a dificuldade em aceitar mudanças e nos adaptar a novas situações que nos faz empacar em sofrimentos tão intensos?

De qualquer forma, o passado é essencial, mas abandonar o passado também é, mesmo que seja um pouquinho, chega um momento em terapia que se não tivermos essa coragem de fechar algumas portas não podemos nos dar uma segunda chance de olhar para quem somos agora e buscar perspectivas de futuro que condizem com um EU que não é só um Eu-vítima do passado mas um Eu-com passado, que contém dentro de si sua história de vida mas que não é só isso.

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